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Ontem já estávamos todos na sala e a minha professora viu que faltava o Firmino. A senhora professora mandou-me ir procurá-lo que só lhe damos consumições. Eu encontrei o Firmino na arrecadação onde guardamos a lenha para a salamandra da escola. Estava aninhado aos pés dos cavacos e a chorar muito. Eu sabia porque é que o Firmino estava a chorar. O gato do Firmino morreu. Eu tinha visto o pai do Firmino a metê-lo no caixote de plástico do lixo. O gato era velhinho. Muito velhinho e morreu. As coisas ficam velhinhas e depois morrem. Acontece às pessoas velhinhas e até acontece aos peixes às mães e às mimosas. O gato do Firmino chamava-se Farrusco mas toda a gente lhe chamava gato. Só o Firmino lhe chamava Farrusco porque é teimoso. Se toda a gente chamava gato ao gato é porque o gato se chamava gato. Eu sentei-me ao lado do Firmino e pus-lhe a mão nas costas para lhe segurar os suspensórios. Os suspensórios são coisas fortes que prendem os calções e como o Firmino parecia que estava a desaparecer eu queria segurá-lo e achei que se lhe agarrasse os suspensórios o Firmino não desaparecia. Lembrei-me daquelas ervas muito compridas que vivem nos rios e quando a água passa parece que vão com ela mas não saem do sítio. O Firmino também parecia um dióspireiro porque estava cheio de flores mas com mais nada. Eu não chorei. Tinha umas coisas grandes a doer na garganta que pareciam murros mas não chorei porque não se deve roubar nada a ninguém. Muito menos aos amigos e muito menos as lágrimas. Gostava que toda a gente do mundo toda a gente daqui até à lua se chamasse Farrusco. Não me importava de me chamar Farrusco. Quando tiver um filho chamo-lhe Farrusco e se for uma rapariga chamo-lhe também Farrusco. Até a Ritinha devia chamar-se Farrusco. Era bom que Deus se chamasse Farrusco. Isso é que era bom. Assim o Firmino não chorava porque tinha o gato dele para onde quer que olhasse. O problema é que só o Firmino chamava Farrusco ao Farrusco. Nem eu chamava Farrusco ao gato do Firmino. Eu sei que o Firmino é o meu melhor amigo mas quando ele se levantou bateu-me. Deu-me dois pontapés três estalos e dois murros na cabeça que eu contei. Depois foi-se embora e eu não sei para onde. Foi para casa. Eu acho que vamos sempre para casa quando os outros não sabem para onde vamos. Eu não sou o melhor amigo do Firmino porque acho que o Firmino não tem coisas que são melhor. Eu gostava muito do gato do Firmino.

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Gaffe



2 coisas escritas

De M.J. a 23.02.2017 às 11:35

"Os suspensórios são coisas fortes que prendem os calções e como o Firmino parecia que estava a desaparecer eu queria segurá-lo e achei que se lhe agarrasse os suspensórios o Firmino não desaparecia."


há tão pouca ternura no que vou lendo pela vida e depois encontro-a aqui toda.
é das coisas mais belas que já escreveste, meu amor, este teu Gui.

De Gaffe a 23.02.2017 às 12:12

Eu não posso responder, porque este espaço é do Gui. Sou uma estranha. Não posso imiscuir-me no que dizem ao Gui. Não é meu. É dele e para ele. 
No entanto, quero dizer-te que bastaria um "não" teu, um "não" pequenino que fosse, tão pequenino como o Gui, e o Gui desaparecia.


Obrigada. 

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